domingo, 5 de agosto de 2012

Procurador antimáfia: tirar bens é melhor que prender chefes


Pietro Grasso (esq.) conversa com o procurador-geral do Rio de Janeiro, Cláudio Lopes. Foto: Giuliander Carpes/Terra
Pietro Grasso (esq.) conversa com o procurador-geral do Rio de Janeiro, Cláudio Lopes
Foto: Giuliander Carpes/Terra
GIULIANDER CARPES
Direto do Rio de Janeiro
"Pietro Grasso é hoje um herói nacional na Itália porque segue conduzindo seu trabalho apesar de viver sofrendo ameaças de morte", diz o historiador da Universidade de Roma Tre e ex-parlamentar Enzo Ciconte. O motivo: no cargo de procurador nacional antimáfia desde 2005, Grasso comanda uma "guerra" contra o crime organizado italiano. Entre seus principais inimigos estão membros da Cosa Nostra, a máfia siciliana, cujos chefes estão todos presos, segundo o procurador.
Grasso está no Rio de Janeiro onde, nesta sexta-feiram, dá uma palestra para membros do Ministério Público regional. Também pretende firmar uma parceria com o MP para trocar experiências e informações para combater o crime organizado. Para ele, embora haja diferenças entre as facções criminosas da Itália e do Brasil, é fator até mais importante para combatê-las bloquear seus bens e posses do que prender seus chefes.
"Para chegar a pegar um capo (chefe da máfia), é importante que este trabalho seja bem feito e efetivamente possa deixar a pessoa sem chão. Mas é mais eficaz limitar as formas de financiamento destes grupos do que prender seus chefes. Porque os comandantes mudam, mas sem dinheiro eles ficam com menos poder", afirmou, em entrevista aoTerra.
Confira a íntegra:
Terra - Sabemos que muitos chefes da máfia italiana têm sido presos. Em que situação está a máfia hoje, depois dessas prisões? Ela segue sendo uma grande ameaça?
Pietro Grasso
 - Nós temos conseguido resultados muito bons, muito sucesso. Todos os chefes da Cosa Nostra siciliana estão hoje presos. Já desestruturamos a organização mafiosa. Mas é impossível dizer que acabamos com ela completamente. Agora temos de estar muito atentos porque a característica desta organização é que ela se reestrutura com o tempo, embora sempre retorne mais fraca. Não podemos baixar a guarda, a atenção tem de permanecer a mesma.
Terra - E como fica a máfia italiana neste cenário de crise econômica na Europa?
Grasso
 - A crise econômica atual está fazendo os grupos criminosos ainda mais poderosos porque eles têm dinheiro em espécie, pronto para gastar. Alguns bancos que normalmente já fazem o serviço de lavar esse dinheiro hoje estão ainda mais propensos para isso. E isso não ocorre somente na Europa, mas em outros países onde as economias estão fragilizadas e os mafiosos podem influenciar os políticos.
Terra - E como funciona a cruzada contra a máfia na Itália? Sabemos que há bloqueio dos bens dos chefes. Qual a importância disso e como isso pode ser utilizado para vencer outros tipos de organizações, como o tráfico de drogas brasileiro?
Grasso
 - A explicação é muito simples. O objetivo final da máfia e do crime organizado é o lucro, os bens, o patrimônio. A solução para o problema é cercar o patrimônio, que é uma coisa bem complicada de fazer. Com as novas tecnologias, isso está ficando menos difícil. Na Itália, estamos tendo muito sucesso em sequestrar os bens dos chefes da máfia. Em quatro anos, bloqueamos 40 bilhões de euros em bens e confiscamos efetivamente 4 bilhões de euros. A guerra ainda não está vencida, mas muitas batalhas nós já conseguimos vencer.
Então é um caminho que o Brasil poderia tomar, embora eu não conheça especificamente a realidade do crime organizado brasileiro. Para chegar a pegar um capo (chefe da máfia), é importante que este trabalho seja bem feito e efetivamente possa deixar a pessoa sem chão. Mas é mais eficaz limitar as formas de financiamento destes grupos do que prender seus chefes. Porque os comandantes mudam, mas sem dinheiro eles ficam com menos poder
Terra - E as outras facções da máfia italiana?
Grasso
 - Os chefes da Cosa Nostra já estão presos e ainda temos alguma coisa da Camorra (napolitana) e da calabresa em ação, embora elas hoje sejam mais fracas também.
Terra - A máfia comete vários tipos de crime, entre eles o tráfico de drogas. O que o senhor acha desta estratégia que o Uruguai vem pensando em legalizar e controlar o consumo de maconha?
Grasso
 - Já temos algumas experiências deste tipo no mundo. Um exemplo é a Holanda. O problema é que o país acaba se tornando um centro de consumo do mundo porque todo mundo vai para lá consumir a droga porque é liberada. Acabou que a Holanda está voltando atrás. É um exemplo negativo, mas é algo para se pensar se é um bem ou um mal, em como isso vai influenciar nas estruturas criminosas.
Fonte:Terra

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