segunda-feira, 30 de julho de 2012

Fogo contra fogo


Policiais executados em horário de folga, inocentes baleados em ações desastrosas da PM e uma nova onda de ataques a ônibus trazem o medo de volta às ruas e elevam os índices de homicídios na grande São Paulo. Como reverter a escalada de violência?



Cidade em chamas: Sacomã, madrugada de 26 de junho, criminosos destroem um ônibus. Em pouco mais de um mês, 24 coletivos foram atacados, 14 queimados (Foto: Cristiano Novais / AE)
Por Camilo Vannuchi e Solange Azevedo*
O soldado da Polícia Militar Valdir Inocêncio dos Santos tinha 39 anos. Morreu nos braços da mãe, em Guaianases, extremo leste da capital, depois de ter sido alvejado por 29 tiros na porta de casa. Vaner Dias, 44, também era soldado. Dava aula de jiu-jítsu numa academia na Vila Formosa, Zona Leste, quando foi atingido por oito disparos. O sargento Vagner da Silva Garoli foi baleado num semáforo, aos 46 anos, numa tarde de sábado. Acabara de jogar futebol na Freguesia do Ó, Zona Norte. Testemunhas contam que dois homens o seguiram numa moto. Fugiram sem roubar nada. No total, sete policiais militares foram executados na Grande São Paulo entre 13 e 30 de junho, enquanto estavam de folga. Um oitavo PM quase engrossou as estatísticas no dia 23 de julho. Anderson Sales, 28, levou três tiros de fuzil enquanto voltava para casa, no Jaçanã, Zona Norte. Foi internado com fraturas no fêmur, no braço e na clavícula. Apesar desses atentados, de seis bases da polícia terem sido alvejadas e de 24 ônibus terem sido atacados na região metropolitana (14 queimados) em pouco mais de 30 dias, o secretário estadual da Segurança Pública afirmava não se tratar de uma onda de ataques. “Está tudo sob controle”, disse Antonio Ferreira Pinto em entrevista a Época SÃO PAULO.
Normalmente avesso a falar com a imprensa, ele recebeu a reportagem em seu gabinete no dia 12 de julho. Falou por mais de uma hora e disse que os episódios recentes, ao contrário do que se suspeita, não fazem parte de um plano orquestrado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa dominante nos presídios paulistas, com milhares de filiados nas ruas. “São casos isolados. A Polícia Militar exerce uma atividade de alto risco, intervém em conflitos e cria desafetos porque está sempre combatendo o crime. As mortes são contingências da atividade da PM. Rotular tudo como ataque é temerário.” Após 40 minutos de entrevista, ele aceitou se referir à série de atentados como “turbulências”. Menos de duas semanas depois, admitiu pela primeira vez que a capital vivia uma escalada de violência.
É verdade que, ao longo de mais de dez anos, a criminalidade tem caído progressivamente em São Paulo. Para verificar isso, basta citar o indicador mais importante: o índice de homicídios. Em 1999,foram cometidos 5.418 homicídios na capital – uma taxa de 52,58 para cada 100 mil habitantes. Em 2010, o número caiu para 1.196, ou 10,64 mortes por 100 mil habitantes,um índice muito próximo de excluir São Paulo das cidades em que a ONU considera haver uma “epidemia de violência”. Em comparação com 1999, a queda de homicídios foi de 78%. Neste ano, porém, fora do gabinete de Ferreira Pinto, tem sido palpável o recrudescimento dos crimes.

Desfechos trágicos
Arrastões mais frequentes em restaurantes e edifícios, assaltos em trajetos antes considerados seguros – e,o pior,mais mortes. Nada que signifique, é importante dizer, um retorno aos números do passado. Mas o suficiente para mexer com nossa sensação de segurança. O medo tem crescido diante de casos como o recente assassinato do italiano Tommaso Lotto, de 26 anos, alvejado no cruzamento das avenidas 9 de Julho e São Gabriel. Em junho, houve 134 homicídios na capital, 49% a mais que o registrado no mesmo mês do ano passado. O contra-ataque policial acabou por transformar algumas regiões da cidade em verdadeiras praças de guerra. A ordem era evitar a disseminação do medo. “A polícia não vai retroceder um milímetro”, afirmou o governador Geraldo Alckmin,no auge da crise. “Se enfrentar a polícia,levará a pior.” Em poucos dias, uma sequência de ações policiais desastrosas deixou a população ainda mais assustada.

Fonte: Época

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